O post de hoje é sobre saúde mental no tratamento da gravidez. Quem aborda o assunto, de maneira muito sensível, é a nossa querida colunista, Dra. Maria do Carmo. Confira!
A importância da saúde mental no tratamento da gravidez
Quanto mais tempo passa, quanto mais me dedico à abordagem das questões referentes à fertilidade, à declaração da vontade de gestar, de constituir uma família, mais ampla se torna para mim a necessidade de uma visão maior das questões todas relacionadas.
Elas não são recentes, estão presentes na história da humanidade desde relatos bíblicos como os de Abraão e Sara ou da continuidade da representação familiar como na situação de Ruth e Boaz. E, se existem estes registros relacionados à fertilidade, não se conhece nenhuma divindade à qual se atribua um culto à infertilidade. O que envolve o entorno emocional das pessoas que encontram dificuldades ao tentarem fundar sua família?
Saúde
Conceitos para abordagem populacional se estabelecem, derivados de observações e vivências integradas de estudiosos de várias áreas, buscando uma uniformidade que independa de geografia ou mero interesse político. Num determinado momento, podemos entender que ideias se cristalizam como faróis de orientações para conduzir a aplicação de condutas face a situações de dificuldades presentes. É a minha visão pessoal de entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS ou WHO, em inglês).
Desta forma, o conceito de Saúde da OMS, em 1946, pós segunda grande guerra mundial, definiu uma condição de bem-estar físico, mental e social a ser buscado. A evolução das ideias mostrou que esta ampliação não é suficiente: condições de saúde/doença tem a ver ainda com condições de vida e interação dos indivíduos com estas situações, introduzindo um novo fator que é a qualidade de vida.
Temos ainda novos entendimentos, relacionados a questões definidas pela OMS como Deficiências (Disabilities), relacionadas à condição de saúde de uma pessoa e seu envolvimento pessoal e fatores ambientais relacionados a esta condição (como atitudes negativas, baixa de autoestima, limitações sociais pela presença da situação, dificuldade de atendimento, de acesso aos tratamentos, etc.). Estima-se acima de um bilhão de pessoas afetadas, ou seja 15% da população mundial, 190 milhões com idade superior a 15anos. Facilmente podemos reconhecer que a condição da Infertilidade ou de não conseguir formar uma família enquadra-se perfeitamente nesta definição.
Infertilidade
A definição de infertilidade (Zegers-Hochschild et al, 2017) é uma doença ( sim, doença) caracterizada pela falha de se estabelecer uma gravidez clínica ( onde está presente o embrião com batimentos cardíacos audíveis numa ultrassonografia transvaginal) ou devida a uma diminuição da capacidade de uma pessoa se reproduzir como indivíduo ou com ou sem um(a) parceiro (a), até 12 meses de relação sexual desprotegida ( sem o uso de métodos anticoncepcionais).
Buscar ter filhos é hoje decisão mais ampla. Pode ser tomada por um casal hetero que interrompe a utilização de um método contraceptivo, por um casal homoafetivo, ou por uma pessoa individualmente. Todas estas situações estão contempladas não somente por um entendimento maior do que é uma família, mas também estão reconhecidas nas resoluções que norteiam a nossa prática médica no Brasil quando da necessidade da utilização de técnicas de reprodução assistida no processo (CFM- Res2294-2021).
Casais homoafetivos femininos vão precisar do gameta masculino (espermatozoides), os masculinos necessitarão de gametas femininos (óvulos) e de um útero que possa acolher o embrião, propiciar a gravidez e o parto, assim como pessoas solteiras também precisarão da complementação biológica que lhes falta. A Resolução do CFM reconhece a legitimidade de se utilizar a ajuda tecnológica para todas as pessoas que venham a solicitá-la, mas também ali está redigido que devem ser pessoas capazes , com procedimentos que não se afastem dos limites desta resolução.
Como facilitar este lugar emocional do tratamento para a gravidez?
Pincei quatro palavras-chave da expectativa de tratamentos para engravidar, presentes no dia-a-dia da medicina da reprodução: processo, legitimidade, capacidade e limites. Todos claramente demonstram grande lacuna a ser preenchida, com necessidade de agregar saberes e abrirmo-nos para expandir as vivências e acolhermos adequadamente os que nos buscam.
Há nelas o nosso reconhecimento médico de que o fator sujeito escapa às intervenções puramente técnicas e que nosso trabalho está longe de ser simples, precisando da colaboração de outros profissionais na construção dos caminhos a serem percorridos.
Encanta aos pacientes (talvez melhor chamá-los de clientes pois o termo paciente implica em submissão a um detentor de saber maior) esperar que o ambiente exterior da tecnologia em si, os números estatísticos múltiplos que por vezes não compreendem, superem suas dificuldades, suas ansiedades e seu desamparo. Todos os avanços da Ciência até aqui percorridos, o que é corrente, o factível, o que virá, para os clientes pode ser entendido como exato, sucesso garantido sem riscos, uma ciência perfeita e asséptica, à disposição dos consumidores-clientes.
Para fugir destas armadilhas, o processo passa por estabelecer uma parceria entre pessoas. Cabe ao especialista médico ouvir as informações, atentar aos detalhes, não diagnosticar por exames, mas deixar os fatos se exporem por si. Como as pessoas se sentem, pessoalmente, como está o ambiente familiar, o trabalho, há interferências sobre a vida diária?
É legítimo para os clientes buscarem ajuda, e para os profissionais envolvidos, mediante experiência e julgamento, estabelecer possibilidades, para apreciação dos clientes, inclusive do provável ganho num acompanhamento psíquico, focal, temporalmente definido, ou até mesmo a um prazo maior. Mas, não há como assumir uma postura de “quem manda e quem sabe o que é o melhor” ou mesmo sentir-se ofendido(a) por questionamentos de seus clientes. Indivíduos são capazes de expressar seu próprio entendimento, permitindo ou não um procedimento, definindo seus próprios limites nas buscas.
E a “cura”? Ah, a cura (termo que vem do latim significando “atenção”, “zelo”) vai resultar em trabalho diário mais ameno, relacionamentos profissionais-equipes-pacientes mais conscientes, com sua saúde, como um todo, recuperada ou “sanada”.
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