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Desenvolvimento das habilidades sociais nas crianças

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O desenvolvimento das habilidades sociais é tão importante quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Habilidades sociais são um conjunto de comportamentos manifestados por uma pessoa no contexto em que ela vive. Ou seja, é como expressamos os sentimentos, nossas atitudes, opiniões, de acordo com cada situação. É o que nos ajuda a nos relacionarmos com o outro.

As habilidades sociais são tão importantes quanto qualquer outro comportamento do desenvolvimento infantil. E exige atenção. Por isso, a Raquel Suertegaray, psicóloga especializada em infância e adolescência, aborda esse assunto no post de hoje para celebrar seu retorno como colunista no MdM. Confira!

Desenvolvimento das habilidades sociais nas crianças

No meu retorno ao Macetes de Mãe decidi abordar o desenvolvimento das habilidades sociais dos nossos filhos, para coroar este momento tão especial. Considero uma temática super importante, pois tem reflexos ao longo de toda a vida e começa a se estruturar muito cedo.

As habilidades sociais são aqueles recursos internos que desenvolvemos ao longo da vida e que nos possibilitam conviver e nos conectarmos as outras pessoas. É um processo que acontece em paralelo às demais áreas do desenvolvimento e deve receber a mesma atenção. Porém, nem sempre acontece de receber a devida atenção.

Este é um processo que não acontece de uma hora para outra. Inicia muito antes que as pessoas imaginam e a criança depende do apoio dos adultos para que isto aconteça. Por esta razão é tão importante que os papais e as mamães compreendam um pouco quantas variáveis interferem neste processo.

Nos primeiros meses de vida o bebê descobre o mundo através dos pais. E assim inicia processo de confiança e socialização com o ambiente. Isso terá desdobramentos ao longo de toda a vida.

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O apego, que é um assunto em alta na atualidade, é o fator mais importante no desenvolvimento da socialização. Apesar de estar sendo tão comentado, muitas vezes tenho a sensação de que não é muito bem compreendido, pois vejo uma série de interpretações equivocadas. Muitas pessoas defendem que criação com apego é criar o filho grudado. Porém, aos meus olhos, não é bem por aí.

Umas das maiores importâncias do apego é desenvolver na criança uma sensação que chamamos de segurança básica. O que é isso? É uma certeza internalizada de que ela está segura e que pode contar com suas figuras de referência. Estas sensações permitem que o bebê lide com menor ansiedade com as situações de separação.

Em outras palavras, trata-se de estabelecer uma ligação permeada de afeto e segurança, onde a criança se sente segura e integrada. Isso, mesmo quando não está na presença ou em contato físico da mãe – que na maioria das famílias é a pessoa com quem a criança tem uma ligação mais forte.

É esperado que os bebês reajam e manifestem contrariedade ao perceberem que a mãe ou alguém muito importante vai se afastar, por isso eles choram. Nessa hora, eles precisam de um adulto que ofereça um bom suporte e ajude a se reorganizar e se acalmar.

A ideia que a criança ou o bebê só estarão preparados para se separar quando não chorarem ou reagirem ao afastamento é falsa. Os bebês diferenciam as pessoas que são importantes em sua vida e demonstram angústia ao afastarem-se delas. Até porque, inicialmente, o único recurso que possuem para “reclamar” é o choro, isto é normal e saudável, em certa medida.

Não é para deixar a criança chorando sozinha!

É claro que não estou falando de deixar um bebê ou uma criança maiorzinha chorando descompensadamente até se acalmar. Não se trata disso, até porque não é possível, nestas circunstâncias, vivenciar uma experiência de segurança. No entanto, a criança precisa perceber que pode contar com outras pessoas para lhe tranquilizar além da mãe, pode ser uma experiência libertadora.

Da mesma forma, uma criança que desperta ao longo da noite, resmunga um pouco, se movimenta na cama, perde e reencontra o bico, pode, se for lhe oferecido espaço e tempo, descobrir que ela mesma é capaz de se resolver e voltar a dormir. Volto a dizer, não falo de uma criança em desespero, ser deixada chorando no meio da noite para aprender na marra que chorar não adianta.

Então, compreender que podem contar com outras pessoas, mesmo que estas “levem um tempo para pegar o jeito” ou que existem “coisas” que eu faço com meu próprio corpo e consigo me acalmar, são processos importantes na vida de bebês e crianças pequenas.

As pessoas, sejam elas grandes ou pequenas, se organizam internamente melhor quando são capazes de antecipar o que vai acontecer. Por esta razão rotinas estáveis ajudam no desenvolvimento da segurança básica na criança.

Explicar para o pequeno o que vai acontecer ao longo do dia a dia é tranquilizador, pois aos poucos ele passa a compreender o que esperar e se preparar. Esta é uma das razões pelas quais os pais não devem enganar os filhos dizendo que não irão sair ou distraí-los para sair escondidos. Quando se sentem enganados sobre as separações, passam a permanecer sobressaltados, atentos a qualquer sinal de possível afastamento.

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O desenvolvimento da confiança básica da criança tem forte relação com a forma como ela lida com a separação. A capacidade de se separar é uma das primeiras habilidades sociais que a criança conquista. E os adultos devem ajudá-la a lidar com este desafio, transmitindo a mensagem de que é possível passar por isso.

É importante ser honesto e auxiliar os pequenos a nomear seus sentimentos, para que compreendam o que estão vivenciando. Nossos filhos precisam de adultos em quem possam confiar e ofereçam conforto, sendo verdadeiramente sensíveis as suas reações.

Pais e mães devem lembrar que lidar com a separação é uma tarefa para a vida inteira. Pois, ao longo dos anos, perdemos pessoas importantes ou nossas vidas mudam. Por esta razão, é fundante desenvolver habilidade para lidar com adversidades e este processo começa muito cedo.

O que venho tentando transmitir é que nos primeiros anos de vida as crianças desenvolvem as bases para todas as suas relações ao longo da vida. Nesta época, elas precisam aprender a lidar com frustrações, resolver problemas e desenvolver segurança básica.

Para que isto aconteça, necessitam cuidadores suficientemente bons, ou seja, que lhes  respeitem e ofereçam suporte, mas que não sejam perfeitos – que sejam apenas suficientes – de forma que a criança se depare com dificuldades em uma dose tolerável.

Dias atrás, recebi pelas redes sociais uma matéria de jornal que destaca a importâncias das mães se tornarem desnecessárias com o passar do tempo. Ou seja, que encorajem seus filhos a traçarem seus próprios caminhos de forma autônoma. Mas que mantenham dentro de si a certeza de que sempre terão um colo quando precisarem.

É um texto que facilmente pode ser encontrado fazendo uma busca no Google e que ilustra de forma brilhante tudo que estou tentando transmitir.

Limites são importantes

Ao falar de socialização não podemos deixar de lado o tão famigerado limite. Viver em sociedade nos impõe a necessidade de seguir e respeitar alguns códigos de conduta, que podem variar de cultura para cultura, mas que sempre existirão e nossos filhos devem compreender isto.

As crianças necessitam sentir que os adultos à sua volta são capazes de lhes sustentar e também impor limites. Ao testá-los, quando tentam burlar as regras, buscam uma reação e nela encontram uma forma de certificar-se que eles existem.

Pode parecer contraditório, mas esta reação que lhes dá notícia de que isso ou aquilo lhes é interditado, faz com que se sintam protegidos. Contribui para que sejam aceitos nos grupos que frequentam. E assim, transmitimos a eles os valores, regras e o que é aceito ou não na cultura onde estamos inseridos.

Preparar os filhos para viverem em sociedade é mais que torná-los comportados. É transmitir a importância de considerar o ambiente, as outras pessoas e aprender a colocar-se no lugar delas para compreender como se sentem.

Desenvolver habilidades sociais nos nossos filhos implica em torná-los seguros de si. E, acima de tudo, em ensiná-los a serem amigos e sentir compaixão pelas outras pessoas.

Com frequência leio relatos sobre crianças menores de 3 anos não serem capazes de se relacionar. Ou ainda que afirmam que crianças menores de 3 anos não precisam de convívio social. Confesso que me assusto!

Entendo que estas falsas verdades nascem da natureza egocentrada do bebê, que espera que o mundo se molde a ele e que inicialmente não consegue descentrar-se de si mesmo. Mas isto não significa que o mundo deva se moldar.

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Sabemos hoje que o cérebro se desenvolve a partir da interação, ou seja, a forma como vivemos molda nosso cérebro. Portanto, crianças que crescem em um meio que desvaloriza as relações sociais, terão mais dificuldade no contato com outras pessoas.

A base para as relações está no apego. Portanto, as crianças precisam de relações amáveis e estáveis, que lhes apresente um mundo confiável e ajude a ver as pessoas e a relação com elas como fonte de prazer.

Ligações de apego seguras nos primeiros anos de vida não dependem da criança estar grudada em sua mãe. Mas sim em sentir-se segura para afastar-se dela. Vejo muitas mães justificarem na criação com apego, a manutenção de um vínculo simbiótico com seus filhos. No qual estes não são capazes de sentir-se inteiros, sem estar em contato físico e visual com elas. E não aceitam suporte afetivo, nem mesmo de seus pais, como se estivessem fazendo-lhes um bem. Mas a verdade é que estão prejudicando.

Criação com apego é muito diferente de criação com grude. Crianças que desenvolvem relações de apego saudáveis, reagem ao perderem sua figura de apego de vista. Mas por outro lado, se aliviam ao vê-la retornar. A repetição desta experiência lhes permite suportar períodos de afastamento maiores.

Crianças seguras se sentem autorizadas a se conectarem e se apegarem a outras pessoas, que lhes supram de segurança e afeto na ausência dos pais. E, à medida que crescem e ampliam sua rede de relações, se tornam seguras e valorizam a si mesmas. E damos o nome de autoestima a este sentimento.

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